
Lucro bilionário, vidas descartáveis e a indiferença da Uber em relação aos trabalhadores e passageiros que irá alimentar a carnificina do mototáxi em São Paulo, capital, tudo com o aval da justiça.
A irresponsabilidade da Uber em insistir na operação do serviço de mototáxi na capital, com o aval do Tribunal de Justiça e apoio da CNS, ignora uma realidade trágica: 475 mortes de motociclistas registradas na cidade de São Paulo em 2025.
Agora (e novamente) o mototáxi se aprovado, irá expor os trabalhadores a longas jornadas, salários baixos e riscos severos, promovendo um retrocesso na segurança pública e viária, que refletirá em todo Brasil.
A recente decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que obriga a liberação do serviço de mototáxi da Uber sob o respaldo da Confederação Nacional dos Serviços (CNS), acende um alerta gravíssimo sobre a segurança pública e viária.
Ao ignorar as orientações municipais e a letalidade das ruas, o judiciário paulista, CNS e a Uber – esta interessada apenas em lucros bilionários, chancelam um modelo de negócios pautado pela indiferença institucional, que sobrepõe à dignidade e à sobrevivência humana, expõe pessoas a um risco desigual, perigoso e muitas vezes, se não na maioria dos casos, mortal.
Enquanto a Uber expande suas fronteiras financeiras globalmente tornando-se uma empresa altamente lucrativa, a realidade nos eixos urbanos paulistas e do trabalho informal, é de extrema precarização. Os trabalhadores do motofrete e, agora, os potenciais condutores do mototáxi, enfrentam jornadas exaustivas e remunerações miseráveis, arcando sozinhos com os custos de alimentação, documentação, combustível, manutenção e depreciação das motos.
Essa exploração atinge o ápice da irresponsabilidade na recusa das plataformas em garantir, inclusive, um seguro de vida robusto e cobertura integral para os trabalhadores, tratando os acidentes como meras fatalidades individuais de “parceiros autônomos”, negando ainda direitos trabalhistas para esses profissionais como férias, descanso remunerado, 13º, etc.
Estatísticas macabras e a falha judiciária
A decisão judicial recente do Tribunal de Justiça vai na contramão dos dados alarmantes divulgados pelo sistema estadual Infosiga: 475 motociclistas mortos na capital paulista ao longo do último ano civil, 238 óbitos registrados apenas no primeiro semestre de 2026, consolidando o período como um dos mais letais da história recente para quem usa duas rodas na cidade. Isso registra alta de 8,2% nas mortes de motociclistas em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Ao conceder liminares que blindam a atuação da Uber, os juízes demonstram uma alarmante desconexão com a realidade asfáltica, desconhecimento do caos do trânsito das grandes cidades como a da capital paulista. Beneficiam ainda a estratégia comercial e modelo de negócios de gigantes da tecnologia, como a Uber, em detrimento da governança local e da própria vida.
A violência viária promovida por essa precarização gera um impacto devastador na saúde pública.
Nas unidades da Rede de Reabilitação Lucy Montoro (SP), por exemplo, as filas de atendimento e reabilitação são dominadas por vítimas de sinistros com motos. Mais da metade dos pacientes de trânsito acolhidos pela instituição de excelência sofreram acidentes em motocicletas, dos quais 58% ficaram paraplégicos e 20% sofreram amputações severas.
O mototáxi liberado eleva esse cenário a um patamar de risco coletivo sem precedentes. Não se trata mais apenas do entregador correndo contra o relógio para garantir o sustento ou a entrega de um pedido. A fragilidade inerente à motocicleta agora passa a envolver diretamente passageiros — muitas vezes sem treinamento ou equipamentos adequados — e terceiros nas vias, transformando o transporte público individual em uma roleta russa urbana legalizada pelas instituições que deveriam proteger as pessoas da ganância.
Dados da letalidade do trânsito paulista que pode atingir números dignos de uma guerra – ano base 2025:
- 475 mortes de motociclistas em 2025;
- 87% das vítimas letais de acidentes no trânsito eram homens;
- 68% tinham entre 19 e 45 anos;
- 58% ficaram paraplégicos ou tetraplégicos;
- 20% sofreram amputação de algum membro do corpo.