Neste 1º de maio de 2026, o trabalhador motociclista brasileiro não tem motivos para comemorar, vivenciando, ao contrário, o capítulo mais sombrio da precarização laboral na era da “uberização”.

Longe de celebrar conquistas, o cenário é de abandono absoluto, onde a categoria se vê acuada pela falta de regulamentação efetiva e pelo desinteresse do poder público federal em garantir direitos fundamentais.

A festa do trabalho ignora quem sustenta a economia da entrega, evidenciando uma abissal distância entre o discurso político, promessas não cumpridas e a realidade cruel das ruas.

O Governo Federal, em sua gestão atual, pouco fez para alterar a lógica exploratória imposta pelas plataformas digitais.

A promessa de proteção social foi substituída por medidas tímidas e discussões paralisadas, deixando o entregador à própria sorte.

A incapacidade — ou falta de vontade política — de responsabilizar as empresas de aplicativo resultou na perpetuação de uma submissão disfarçada de “autonomia”, na qual o trabalhador arca com todos os custos operacionais, riscos e acidentes, enquanto as corporações maximizam lucros sem qualquer vínculo trabalhista.

A atuação da Secretaria-Geral da Presidência, sob o comando do ministro Guilherme Boulos, mostrou-se insuficiente e pouco efetiva para o tamanho do problema. Apesar de anúncios de propostas, as iniciativas concretas de proteção e remuneração mínima enfrentaram impasses na Câmara e resistências das empresas, sem avançar na velocidade necessária para conter a precarização.

A categoria, que clamava por um diálogo real, sente-se negligenciada pela pasta que deveria ser a ponte entre o governo e os movimentos sociais.

Como resultado direto desse cenário, o entregador vive a maior precarização da história. As jornadas de trabalho tornaram-se intermináveis, muitas vezes superando 12 horas diárias, na tentativa de alcançar um rendimento mínimo que não cobre o aumento dos custos de manutenção das motocicletas. A insegurança no trânsito cresceu, resultando em um aumento de acidentes e sobrecarregando o SUS, enquanto o trabalhador, ao se acidentar, é descartado pelo algoritmo sem receber suporte financeiro ou médico adequado, configurando um verdadeiro “descarte humano”.

Portanto, este 1º de maio é um dia de protesto e luto pela dignidade perdida. Sem o reconhecimento do vínculo empregatício, sem piso salarial digno e sem a responsabilização solidária das plataformas pelos acidentes, o motoboy continua sendo apenas um “número” na tela do celular. A precarização não é apenas uma condição de trabalho, mas uma escolha política que abandona o trabalhador a uma vida de longas jornadas, ganhos miseráveis e alto risco de morte nas vias públicas.